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Eu sou a pessoa mais humilde do mundo!

Nariz empinado | PROFUNDIDADE

Perdi a referência!

Voltei ao Eco[1] – gostei mais ainda –, mas não reverberou. Mas como reli com pressa, nem posso dizer que não é dele mesmo. Vou ter que lidar com as lembranças.

Humildade é essencial em trabalho científico.

E, recentemente lendo Harari[2], vemos como a possibilidade de ciência só existe com o reconhecimento da ignorância. Ao contrário das religiões que dependem da crença, e por isto mesmo não questionam verdades e dogmas, a ciência nasce e se desenvolve no reconhecimento daquilo que não se sabe. É a partir do reconhecimento da nossa ignorância que podemos buscar material, teorias, experimentos, caminhos para tentar resolver e iluminar o não saber.

O pesquisador pode ser a pessoa mais arrogante do mundo. Soberba, presunção, olhar de cima e nariz empinado tem de monte na academia. Mas, isto é questão pessoal (como dizia uma amiga: pretensão e água benta, cada um toma o que guenta). Entretanto, enquanto cientista, se for arrogante nunca irá para frente, nunca fará ciência.

Quando eu cuidava de processos, projetos e encaminhamentos de bolsas PIBIC?CNPq, reprovei o projeto de pesquisa de um professor do direito (e gente arrogante no direito é redundância). Todavia, este professor veio atrás de mim e disse: “Gessé me ajude a pensar em projeto. Já aprendi tanta coisa. Tenho que aprender a fazer isto também”.

Eu gostava deste professor. Ele vinha de carreira no Ministério Público, tinha livro publicado e lecionava na pós-graduação. Todavia, posso afirmar que fazer pesquisa científica não é a principal característica dos trabalhos em direito. E, aí, embora tivesse um excelente conhecimento técnico, não sabia fazer ciência.

Enfim, foi atrás, repensou e reorganizou o seu projeto, reescreveu, reescreveu…

Quando, no outro ano, o projeto voltou para minha avaliação, eu fiquei surpreso e feliz. Era outro projeto, outro modo de pensar. Fiquei feliz em aprovar um projeto de qualidade.

Enfim. Ser uma pessoa arrogante é problema seu. Agora, arrogância na ciência é problema para a ciência.


[1] ECO, Umberto. Como se faz uma tese. 12ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1995. Esse é um livro clássico de metodologia de pesquisa. Ao reler, vejo que é muito melhor do que quando li pela primeira vez. Tem uma ironia fina que percorre todo o trabalho, mas que às vezes acho que confunde ‘novatos’.

[2] HARARI, Y. Homo Deus, ou Sapiens: breve história da humanidade.