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A cereja no bolo do boçal (2)

Boçal é palavra colonial.

Recentemente o antipresidente Bozo-boçal questionou a importância e a necessidade do estudo e ensino da Filosofia e da Sociologia. Afinal, para que serve isto?

Antes, para fazer um parêntese, fico em dúvida em chamá-lo de boçal. Esta palavra é complicada. Boçal era (1) o escravo recém-chegado da África, que ainda não falava português. Mas o dicionário também afirma que é (2) o “falto de cultura; ignorante, rude, tosco… desprovido de inteligência, sensibilidade sentimentos humanos…”.

Esta palavra é complicada, pois o recém-chegado que não falava português não era, necessariamente, ignorante, rude, tosco… Especialmente porque, depois de um tempo, todos escravos que chegavam às colônias tinham que aprender português, inglês, ou qualquer que fosse a língua colonial.

Esta palavra é racista e colonial. Ela cria uma falsa afinidade entre a falta de conhecimento e a ignorância, inteligência ou sensibilidade. Entretanto, o escravo sabia que ele não sabia, e que tinha que aprender. E isto é muito diferente do ignorante, pois, literalmente, o ignorante ignora que ignora, não sabe que não sabe. A palavra, pensando em Franz Fanon, associa características e coloca na pele do negro aquilo que o processo colonial lhe impõe como selvagem, rude, violento e ignorante; pelo fato de não saber a língua do branco. Melhor não usar esta palavra. Perigosa e racista!

Bolo no forno e a cereja

Todavia, para mim, a fala do Bozo não foi novidade. Na verdade, na minha experiência de professor de sociologia, vejo um caminho – já antigo – de desenvolvimento da “desimportância” das ciências humanas.

Quando comecei a dar aulas na Unimep (que agora está no estertor), no curso de Direito havia 2 disciplinas de Sociologia, 2 de Filosofia e 2 de Metodologia de Pesquisa. Hoje, não há mais nenhuma. Este processo já era percebido pelos professores. Pois, quando os cursos precisavam diminuir custos, as primeiras que saiam da grade curricular eram as disciplinas de humanas. No curso de Direito, alguns professores diziam que eram ‘perfumarias’ (aqueles que, obviamente, não tinham perfume na cabeça), e o necessário eram as disciplinas técnicas. Formar técnicos que não consigam, de preferência, nem questionar a própria técnica. Estamos no momento de formação técnica, de racionalidade instrumental, racionalidade voltada a fins. É por isto que digo que o Bozo só veio colocar a cereja no bolo. Pois, o bolo que levou à eleição deste antipresidente, vem sendo assado há tempo.

Ditaduras digitais: Harari conversa com
Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O entrevistado do dia 11/11/19 no Roda Viva (TV Cultura) foi o escritor Yuval Harari, autor de “Sapiens, uma breve história da humanidade” e “21 lições para o século 21”. Alguns amigos já tinham recomendado este autor, mas, confesso, ainda não li. Todavia, depois da entrevista, vou ler.

O mote da entrevista foi o desenvolvimento das inteligências artificiais, e o perigo que vem junto. Toda tecnologia tem um lado ‘bom’ e um lado ‘ruim’. Isto eu já tinha lido em Paul Virilio. Não dá para pensar trens, sem os acidentes, não dá para pensar no automóvel sem pensar em acidentes, mortes, custos, engarrafamentos, poluição…
Dr. Jekyll e Mr. Hyde são variáveis estruturais em qualquer tecnologia.

O modo como Harari fala das tecnologias digitais, do seu potencial de coleta de dados, das possibilidades de controle e vigilância individuais e coletivas, e do possível uso para a formação de ditaduras digitais, é assustador. Big Brother (do Orwell, é claro) é “fichinha” perto do cenário nefasto que as tecnologias contemporâneas oferecem.

Frente a isto, ele diz da necessidade de controle sobre estas novas tecnologias, e que os governos e população deveriam criar mecanismos para frear os potenciais de alienação e ditaduras possíveis. Ou seja, voltamos à necessidade de fortalecimento do espaço público.

Vamos comer a cereja?

Finalmente, Harari afirma que já temos conhecimento suficiente em tecnologias digitais. Entretanto, para que possamos pensar, questionar e enfrentar estes desafios contemporâneos, a resposta não está na própria tecnologia. A resposta está nas Ciências Sociais, na Filosofia e nas Humanas de modo geral. São elas que podem oferecer recursos e instrumentos teóricos para pensar em regras que sejam democráticas e que possam valer para todos.

Não sei se sou tão pessimista como Weber ou Harari. Porém, frente ao que estou vendo nestes tempos Bozo, que são anteriores ao Bozo, está difícil o otimismo. Fico em dúvidas se as Humanas vão conseguir combater a racionalidade técnica que pode nos levar às ditaduras digitais, sociais e políticas.

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