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chuvas de verão

Chuvas de Verão - Filme 1978 - AdoroCinema

“Chuvas de Verão” (1978) é um filme de Cacá Diegues. O filme se passa em subúrbio carioca (uma conhecida disse não gostar do filme porque cansou desse entorno onde já tinha morado).

No papel de Afonso, Jofre Soares é um homem idoso que se aposenta, e no seu último dia de trabalho ganha uma caneta. Olhar a caneta envolve reconhecimento e amargura; tantos anos de trabalho e um presente tão cheio de ressentimentos.

E é nesse contexto que assistimos ao envolvimento amoroso de Afonso com Isaura (Miriam Pires). A delicadeza, as dificuldades, a timidez, as histórias, o romance e o nu (inusitado para o cinema) de Miriam Pires; uma mulher idosa se revelando para as câmeras. Passados no presente que os aproximam e os distanciam.

De passado tem o Abelardo (Sadi Cabral) que, recorrente, faz telefonemas para casas de antigos conhecidos para saber se ainda estão vivos. (Um conhecido disse que o avô dele fazia a mesma coisa; que pegava a agenda e ficava ligando). Se assegurando da vida pela ausência de outros.

O passado traz pequenas e grandes alegrias momentâneas-duradouras; ou são indigestos como pimentão verde teimando sua lembrança no estômago (por isso, agora só como pimentão vermelho, amarelo e laranja).

Tenho problemas com o passado e como ele, muitas vezes, martela caminhos que não fiz, opções que escolhi, caminhos e trajetórias de encontros e desencontros. (um amigo dizia de arrependimento pelo o que não fizemos; não pelo o que fizemos). Como Bill Murray, em “Flores Partidas”, que vai em busca do filho em um filme que parece road movie; com caminhos, desvios, entroncamentos, bifurcações, viadutos, aeroportos. Indo em busca do que poderia ter feito no passado para se defrontar com aquele presente.

Quando no pré-vestibular, tive uma amiga que chegava na hora (mas dormia na primeira aula), e saía mais cedo, antes da última aula. Isso acontecia porque trabalhava à noite e depois ia para balada, e saia mais cedo para tomar sol no clube. Era engraçado, difícil, doloroso, pois flutuava nas aulas, num difícil balanço entre presença e ausência.

Muitas chuvas de verão se passaram. Ainda lembro do seu rosto, sorriso e casa. Uso o zap (não o telefone) para saber como está. Mando a foto de uma dedicatória em um livro que me deu. Ela responde rápido. Rapidamente sou atravessado pelas lembranças boas de sua companhia, pelos bons momentos daquele tempo, pelas dificuldades vividas, e pelo sentido de trajetória.

Me sinto nu. Tão constrangido como Miriam Pires na frente das câmeras.

É um tempo passado distante que presente se torna assustador, pois vem em forma de enchente. Um intervalo de tempo que se mostra em resumo, e necessidade de passar a limpo. Não é vontade de voltar atrás, é um voltar atrás imposto pela sua presença. Sentimento confusos vêm junto com vontade de dizer, de contar, falar o que vivi, sofri, me fiz, fiz, tornei. Me afogando na quantidade de vozes, choros, dores, desilusões, ressentimentos, que o lapso de tempo se revela.

Mas é acalanto também. É companhia e amor antigo compartilhado.

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