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isso não é ‘omnibus’

Tive aula com Teresa Caldeira e acompanhei à distância os finalmentes da sua tese, que se tornou “Cidade de Muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo”. Super trabalho de pesquisa. São Paulo e transformações urbanas que foram coletadas em anúncios de condomínios fechados, entrevistas, e numa criativa união de trabalho antropológico empírico e teórico. É um livro obrigatório para quem pensa em antropologia urbana, urbanismo e violência.

Enfim. A cidade de muros é uma São Paulo transformada em pletora de condomínios fechados que, em nome de, e usando um discurso de segurança, servem para delimitar, afastar, proteger e segregar diferentes classes sociais.

Isso não é novidade. Raquel Rolnik já tinha mostrado, com olhar urbanista, em “A cidade e a lei: Legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo”. Mas ali, as segregações, ainda sem muros em tijolo e concreto, vinham nomeadas por nacionalidades e cores; bairro de judeu, bairro de italianos, de espanhóis, de negros. E, para finalizar, um espaço branco-café que se espalhava em Higienópolis.

Não vou listar, mas a literatura norte-americana tem muitas pesquisas sobre processos de suburbanizacão, que ocorrem desde o final do século XIX. Talvez “Cidade de Quartzo”, de Mike Davis, junte um pouco de tudo isso.

Não sei se Teresa disse isso, se eu me confundi nas minhas lembranças, ou se foi pela jornada através das constantes barreiras que o livro traz: “excluímos pretos e pobres, pois são sujos e perigosos”. Entretanto, contratamos pretos e pobres para que cuidem de nossa segurança e limpem a nossa sujeira; Higienó/polis.

Isso tudo para dizer que fui à casa de …, num lugar em Campinas, São Paulo, que não conhecia. Também nunca tinha visto tal configuração urbana.

Passei de carro por avenidas, ruas e quarteirões enormes (pareciam as super quadras de Brasília) cujas esquinas, quando havia, separavam um muro alto de outro muro alto, ou mais alto. Nunca tinha visto tal continuidade de muros delimitando tantos e diferentes condomínios fechados. Fui ao mapa da cidade: Parque dos Pomares, Cidade Singer, mas o mapa engana; ele mostra as ruas, não os muros.

Condomínios com pequenas casas iguais espremidas respirando pela portaria; casas grandes e iguais como um carimbo que o arquiteto repete maníaco no terreno; casas grandes, enormes, distinguindo arquitetura e fortunas de acordo com o calibre das armas dos seguranças. Até diria que tinha casas para todos os gostos e bolsos (desde que atingisse o patamar de patrimônio, segurança, segregação, exclusão, e, claro; automóvel).

Fiquei impressionado; ma non troppo.  Impressionado pela quantidade de condomínios e muros em sequência e profusão. Mas, como era de se esperar num lugar desse, sem pedestres nas ruas e avenidas, muitos seguranças, câmeras, cercas elétricas e automóveis. Carros privados com moradores isolados, circulando entre espaços privados e segregados. Pedestres ocasionais e ônibus (não é omnibus) transportando um exército de empregadas e vigilantes – segregados no público – para cuidarem da limpeza e segurança. Higienópolis.

Fui por um caminho e voltei por outro, e assim tive que circular o maior e mais longo dos muros: Alphaville. Não o de São Paulo, o primeiro grande condomínio fechado idealizado e planejado em 1973; mas o de Campinas, que acompanha à mesma lógica de ocupação e segregação espacial e social que o original estabeleceu e se espalhou pelo Brasil.

Dentro do meu Ford Galaxy, me senti Lemmy Caution (Eddie Constantine) resgatando Natasha (Anna Karina) do universo sinistro de Alpha 60; Godard. Fui para casa protegido no automóvel com ar-condicionado ligado, pois lá fora estava um calor infernal:  Fahrenheit 451.

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