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Pesquisa de Campo 1: A primeira pessoa: coragem ou falta de medo

Eu vou escrever esse texto em primeira pessoa do singular. Isso não é uma opção pessoal, ou estilo literário, mas faz parte de uma narrativa tradicional na Antropologia. Os relatos das pesquisas de campo, os dados e o processo de apreensão e conhecimento pelos pesquisadores, são chamados de etnografias, e geralmente são escritos em primeira pessoa.

Malinowsky desenvolveu o método etnográfico na sua pesquisa no início do sec. XX, entre os Trobiandeses. Na introdução do livro “Argonautas do pacífico ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia”, tem uma passagem clássica:

Imagine-se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar até desaparecer de vista.

Essa despedida carrega a ideia do antropólogo que sai do seu lugar, da sua cultura, do seu país, cidade, bairro, e vai ao encontro do ‘outro’, do diferente. O ‘outro’ pode ser um indígena em uma aldeia remota, uma comunidade dentro da mesma cidade, crianças que vivem rua, academia de box, redes sociais, etc., etc…. Nesse movimento está sempre a ideia de encontro com o diferente. E, por isso, o ‘eu’ diz do olhar, da sensibilidade, da percepção, e como isso, que passa pelo autor, pode se expressar em forma de conhecimento sobre o outro e sobre si mesmo no outro.

Em 1988, e vou ter que fazer um esforço para voltar ao final da minha graduação em Ciências Sociais, na Unicamp, comecei a fazer Iniciação Científica. E, não sei por que, me interessei por criminalidade. Com Mariza Correa me orientando, com muito tato ela perguntou se eu achava que daria conta desse campo. Entrar em prisão, cadeia, encontrar presos, ladrões, crime; pense se não é muito para você. Eu ia em um Albergue de Presos. Presos que estavam em liberdade condicional, em transição entre cadeia e casa. Deveriam trabalhar durante o dia e dormir no albergue. 

Eu fui. Não sei se por coragem ou por falta de medo. Acho que são coisas bem diferentes. Coragem exige conhecimento, cautela, procedimentos pensados, conhecimento de perigo; e, por mais rápida que seja a ação, tem uma duração no tempo. Falta de medo é se lançar e enfrentar o perigo, mas é uma negação do perigo, é o instantâneo, o aqui e o agora.

Tinha um perigo que eu desconhecia, tinha um perigo dos preconceitos, imagem e realidade dos presos e criminosos. Mas fui com falta de medo. Se vai fazer campo, faça! Agora!

Esse é o barato da primeira pessoa. O que digo de mim que diz sobre o campo?

Depois da pesquisa, de ter convivido com os presos, consigo dizer que entrar no crime exige um movimento parecido. Entrar no tráfico, trocar tiro com polícia ou bandido, matar, viver na proximidade com a morte, viver e morrer no crime, é falta de medo, não é coragem. 

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